"“Quando alguém te tira do seu sono, e você não fica tão irritado assim, quer dizer algo… Não quer?”
Clínica de aborto Criança Feliz. Como posso ajudar? — atendi, depois do meu coração voltar ao ritmo normal por causa do celular e depois de ficar encarando o “Alice” na tela e aquela foto que eu tirei dela quando desafiei ela a colocar sete chicletes na boca por um tempo.
Silêncio.
— Oi, Alice — usei a melhor voz que pude.
Nota mental: deixar o celular no silencioso. Nota mental dois: não atender, caso esqueça a nota mental um e depois mentir que não ouviu o celular tocando.
— Ei, você. Tava dormindo?
Sério mesmo, Alice? Jura? Esfreguei os olhos.
Não, não — respondi, rabugento. Pior do que me acordar de manhã? Me acordar de madrugada. Mas, pela Alice, fiz um esforço. — Tava deitado na cama, pensando na vida, conversando com as corujas. Afinal, quem é que dorme às quatro da manhã de um domingo, né? Eu, com certeza, não…
— Tive um pesadelo — ela interrompeu, totalmente inconsciente do meu humor. — Desculpa por te acordar. Sei que teu toque do celular é alto e quase te mata de susto, mas…
Sentei na cama e cocei a cabeça, tentando pensar em algo coerente.
— Conta.
Ouvi a respiração dela pesando e ela se virando na cama.
— Só… Me distrai.
Fiz um som de reprovação.
— Depois. Antes me conta. Tu me acordou. Isso me dá direitos.
— Eu… Só… Tive esse sonho. Sonho ruim — não achei que ela tivesse noção disso, mas ela soava como uma criança de cinco anos, assustada, que se perdeu da mãe no shopping.
Ouvi-la falando desse jeito me fez sorrir. Não era muito comum essa “fragilidade” da parte dela. Na real, ela riria da minha cara se eu ligasse pra ela por esse mesmo motivo.
— E o sonho ruim era sobre?
— Não sei explicar muito bem. Era todo mundo que eu conheço se ajeitando na vida, se encaixando em algum lugar e eu… Sozinha. Completamente sozinha. Me, myself and I.
Revirei os olhos.
— Você…
— Sabe o que é mais triste ainda? — ela não me deixou falar. — Nem posso passar o resto da vida sozinha e amarga com 57 gatos porque eu tenho alergia a gatos. E eu não gosto de cachorros. Sabe, um cachorro grandão me mordeu quando eu tinha dez anos. Era gigante. Tinha um focinho comprido. Tem algo muito errado comigo, juro…
Quando o tom de voz dela começou a beirar o desespero, achei que era melhor interromper.
— Ei, ei, ei, coração, me escuta. Você não vai passar o resto da tua vida completamente sozinha e amarga, ok? Nem com vários animais.
— Não vou? — ela murmurou, com a voz extremamente dengosa.
— Não — respondi. — Ainda tem a sua mãe. Ela, tipo, pariu você. Você saiu de dentro da… De dentro dela. Isso é algo que marca. Laços maternos são fortes. Ela não vai te deixar. E, claro, você sempre tem o disk-sexo…
Ela soltou uma risada rouca. Era isso que eu queria.
— Cuzão.
— Olha só… Voltou a me xingar — sorri. — E sei que se eu estivesse aí levaria um tapa. O que significa que você tá no seu estado normal. Vai sobreviver. Foi só um pesadelo.
— É… Deve ser.
— Sabe — comentei —, nunca achei que você fosse assim.
— Defina “assim”.
— Sei lá. Não achei que no fundo você morresse de medo de ficar sozinha… Esse tipo não combina muito contigo.
— Não morro de medo de ficar sozinha, nem no fundo e nem no raso — resmungou.
Claro que morre. Esse teu pesadelo foi só o modo que o seu subconsciente achou de expressar esse seu medo, já que falar sobre o problema não é o seu forte.
— Ah, valeu. Tô te pagando quanto mesmo pra ser a porra do meu psicólogo?
— Uhhhh… Toquei no ponto fraco.
Ela respirou fundo e devia estar contando até 10, sinal de que eu consegui a deixar irritada. Dei uma risadinha.
— Desculpa, amor… Desculpa — mordi o lábio.
Deitei de lado na cama e reparei que perdi o sono.
— Cê tá bem? — perguntei, porque ela ficou calada.
— Sei lá.
— “Sei lá” é o pior estado pra se estar. Estando bem, você sabe… Você tá bem, pronto, acabou. Estando mal, você tem que tentar melhorar. Mas estar “sei lá” não é legal. Então não diz pra mim que cê tá “sei lá”. Porque vou ter que tomar medidas sobre…
Ouvi o sorriso dela do outro lado.
— Sabia que você faz um barulhinho quando sorri? Dá pra notar — comentei.
— Faço?
— Faz. Tipo um “tic”.
— Cara.
— Que é?
— Isso é muito doente.
— O quê?
— Reparar no barulho que o sorriso da pessoa faz.
— Ah, cara… Me deixa — resmunguei.
Ela começou a rir do meu tom de voz, mas parou do nada.
— Tô com frio — ela disse.
— Vem pra cá — sugeri. — Deixo a janela destrancada e você entra. Minha cama tá quente. E eu também.
— Tentador. Mas não seria você que devia fazer isso?
— Você é o homem da relação — respondi.
O que eu disse?
— Tem cobertor ai?
— Tem eu.
— Como você vai me esquentar?
— Deitando por cima de você.
— Eu disse esquentar, não esmagar.
Morra congelada. Fique com hipotermia.
— Uhhhh… Toquei no ponto fraco.
— Estúpida.
Ela riu da minha cara por uns cinco minutos.
— Parou? Acabou a graça? Tá satisfeita?
— Não, mas vou parar de rir em respeito a você.
Não respondi.
— Ei. Pietro.
Continuei sem responder.
— Pietro… Vai. Fala comigo. Tô te ouvindo respirar. Faz um barulhão. Parece um aspirador. É que seu nariz é grande. Quase
Eu ri baixo.
— Olha aí. Tá até rindo. Fala comigo.
Não respondi.
— Tá. Eu vou desligar, então. Um… Dois… Dois e meio…
— Oi.
— Parou o drama?
— Vai dormir.
— Olha que eu vou mesmo. Já são cinco da manhã — ela bocejou.
— Dorme, então.
— Tá bom.
— Vai mesmo?
— Você tá praticamente me expulsando.
— Do que? Telefone?
— Boa noite, Pietro.
— Boa noite, Alice.
Mas nenhum de nós desligou o telefone. Fiquei a ouvindo respirar e se mexer na cama.
— Não vai desligar? — perguntei;
— Não.
— Por que não?
— Porque quando sou eu quem desliga eu sinto que tô te rejeitando.
— A coisa que você mais ama no mundo é me rejeitar.
Verdade. Mas só quando é de propósito e de um jeito bem cruel.
Eu ri.
— Quer que eu desligue? — perguntei.

— Não…
— Por que não?
— Porque quando você desliga eu me sinto rejeitada.
Sorri.
— Eu não te rejeitaria. O que você quer?
— Não sei — ela respondeu, toda sonolenta.
— Quer que eu deixe o telefone ligado, então?
Vai me ouvir dormir? — ela me zoou.
— Não sei… Vou?
— Isso é bem gay, até pra você, só pra tu saber…
— Tudo é bem gay pra você, Alice.
— É. Boa noite.
— Dorme bem — eu disse.
— Dorme bem você também.
— E sonha comigo.
— Escolhe só uma das duas coisas.
Eu sorri.
— Beijo na boca.
Chupão no pescoço.
— Apertão na coxa.
— Hm…
Ouvi ela revirar na cama, se mexer, tossir, suspirar, fazer barulhos com a boca e depois de um tempo, só sobrou a respiração lenta.
— Alice — eu falei depois de uns 15 minutos de respiração, mas só porque tive a certeza que ela já tinha dormido. — Sabe, eu conclui que, depois de pensar e analisar os fatos… Rever a situação… Que, talvez, quem sabe, sei lá… Eu possa estar… Remotamente me apaixonando por você. Não apaixonado. Em processo de apaixonar. Mas não é certeza. Só tenho essa sensação às vezes. Talvez passe amanhã, mas acho que não.
“Tic”."
- Oh, Alice, are you in love with me too? Pietro da Alice, Vinícius Kretek. (via alentador)

T H E M E